segunda-feira, 18 de maio de 2009

Abaixo Assinado

As sementes tornam-se árvores, as crianças tornam-se Homens.
A vida que eu não escolhi nunca poderia ser título para uma digressão musical pimba, mas de uma digressão de hip-hop underground, de um livro, de um musical, talvez de uma ópera. Talvez por isso não vingue.
Por falar em vingar.
Quando vingamos a vida vinga-se e faz-nos vingar outra vez só para se deliciar com uma nova vingança. Vale a pena pensar nisto.
A vida que eu não escolhi podia adaptar-se a uma panóplia enorme de acontecimentos correntes da vida. A vida que eu não escolhi podia adaptar-se a uma panóplia enorme de acontecimentos marcantes da vida. A vida que eu não escolhi podia adaptar-se a uma panóplia enorme de vidas.
Não escolhi a minha vida, nem os pais que me a deram, nem a minha aparência, nem como me chamaria, nem as minhas capacidades nem os meus dons. Não escolhi o meu feitio intríseco, o meu verdadeiro perfil. Não escolhi as minhas oportunidades nem a sua quantidade.
No fundo, não escolhi nada do que levarei para a cova, mudo e frio, e que me acompanhe desde o meu início.
Escolhi as minhas roupas, escolhi os meus gostos, escolhi os meus amigos, escolhi a minha profissão, não escolhi aquilo em que me tornei, não escolhi aquilo em que me vou metamorfoseando.
Aprendi a viver com isso, vivo com isso.
Contudo, não posso, no meu íntimo, naquele lugar escuro e recôndito onde não somos mais que as bestas uivantes que nos originaram, originadas pouco depois do verbo, sentir-me satisfeito. Aliás, não posso, em situação alguma, sentir-me satisfeito.
Nasci com os pais que tenho hoje, 9 meses e meio depois de eles, muito por vontade, muito por acaso, terem cumprido os requisitos bioquímicos necessários para a minha concepção.
Tive as oportunidades que eles me puderam dar, as que consegui e as que a vida me deu. Deixei passar muitas, agarrei as que consegui. Não me sinto frustrado, sinto-me realizado.
Tive a oportunidade de estudar numa escola primária privada e a vida deu-me a oportunidade de ter uma professora que construísse uma máquina de competição no meu ainda iberbe cérebro.
Os meus pais deram-me a oportunidade de ir para o Colégio Militar e eu consegui, usando a máquina de competição que me havia sido moldada, moldar o meu corpo a minha mente e a minha consciência. Pelo caminho, a vida deu-me a oportunidade de ver na minha própria casa vários dramas, desde a violência à pura estupidez. Com isso a oportunidade de ser homem, de ganhar o respeito pela mulher, de tomar as rédeas bem cedo, de tomar decisões com mais de metro e meio, de escolher entre o que via como bem e mal, de tornar-me ainda mais alto na cabeça. Não na área literária, não na área intelectual mas na área afectiva, na inter-relacional, na área que nos torna humanos.
Vinguei, pela primeira vez, elevando-me entre os meus pares, nunca deixando de lhes dar a mão, muito por tentativa e erro. Perdi a oportunidade de chefiar, fui súbdito e com isso ganhei a possibilidade de despontar finalmente a guerrilha antiga que me corria no sangue, que existe em cada uma das minhas células. Como uma folha seca próxima de uma chama, ardeu imediatamente e, como uma floresta tropical, vai ardendo, constante.
Então, conheci África Minha. Percebi as interrogações que me assolavam sobre as minhas origens e ganhei um avô que não conhecia. Um diferente do que eu julgara ser um velhote ausente passando o dia no talho, retalhando carne como retalhava a vida dos seus próximos. A verdade é que não retalhava, talhava por meios que ainda não compreendo mas que são eficazes.
Tudo acontecimentos que não escolhi, tudo variáveis que não controlei, tal como a minha vida paternal, essa que não explanarei, não quero describilizar ninguem nem quero fazer juízos pouco esclarecidos.
De tudo o que pude escolher, orgulho-me de uma acima de todas as outras:
Desde amar e honrar a pátria, até ser ser sempre respeitador, afável e correcto.
Tudo aquilo que me permite repetir: Quando descer à terra,/mudo e frio/escrevam-me na campa/este elogio:/ Menino foi da Luz.
Uma nota de rodapé por ti, porque me importei contigo, porque me iludiste, porque me importei com o que pensavas, porque te segui cegamente no meu campo onde o maior cego eras tu. Morreste-me, de José Luis Peixoto. Acabei de o ler. Morreste-me disse ele. E feliz, morreu sorrindo depois de anos de tristeza e enganos.
Morreste-me meu irmão, que a tua alma de Mustang não seja só um espectro que cobre uma hiena. Ao galope pelos prados verdes que imaginei, espero o teu regresso como o cavalo alazão e de espádua forte que imaginei também.
E por isso, pela vez primeira, vai abaixo assinado.


Pedro Varela de Matos