domingo, 31 de outubro de 2010

Rasgar papel

Com a caneta, rasgo o papel.

Deambulo entre as mentes das que passam, sonolento.
Sentimentos nostálgicos e trágicos cruzam a minha sem pudor. Sem respeito por mim, deambulam as pessoas.
Nesse misto de orgulho, horror e vaidade, cruzam-se acompanhadas num instante, sozinhas no seguinte ou no anterior, não posso nem sei precisar qual.
Talvez seja essa a diferença entre o ódio e o amor: A precedência ou o seguimento de um instante, respectivamente.
Dói-me o lado direito.
No ombro do tijolo duro. Na face do sol que queima, fazendo-me descer a pálpebra na protecção do meu mais querido sentido.
Dói-me a mente.
Porque fui dar-me ao luxo de pensar?Há claramente quem o faça por mim, muito mais e muito melhor...
Décadent é o resumo do meu ser.
Perdoa-me Niezsche se não tiveres razão.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Do bipedismo

Quando nascemos somos educados:


Faz e não faz, diz e não diz, olha e não olha.
Em suma, sê mas não sejas, vive mas vive apenas pela metade. Não ter direito a tudo o que nos é devido é, mais que frustrante ou injusto, indecoroso.
Que vergonha vemos pelos nossos olhos ao olharmos o invólucro celular de um homem que luta e contesta, que não se satisfaz e nunca foi satisfeito. É um homem à bruta.
- Não gosto de viver apenas metade dos dias e por isso não gosto de dormir. É tempo perdido, que infâmia!
Vivo a minha vida ligado à energia pura, rápida, instintiva, intensa e sem vírgulas. Vivo à bruta sendo completo apenas e só assim! À bruta as rugas do meu rosto a envelhecer foram conquistadas ao tempo e não o contrário, pois cada dia que venço é uma conquista titânica sobre os elementos, divindades e demais invenções metafísicas.
Mérito a O. Wilde. Ele prevera este homem. Sem quadros absorventes nem outras bruxarias que tais.
Apenas um homem cheio de raiva, paixão e natureza livre. Um mustang bípede.
Isso mesmo, um mustang bípede.

sábado, 2 de outubro de 2010

Ribalta

De repente,

Num segundo calas-te e o mundo espera ouvir-te. No silêncio das tuas palavras fortes, convictas, não dizes o que querias dizer, apenas o que quiseram ouvir.

Sem a chama de Niezsche, o consolo de Saramago e a livre e suave prosa de J.L.Peixoto sempre misturada no mais fino rigor com a pureza e a verdade que convém, ensaias algo que não é bom nem mau. É teu. Por ora, é só teu. Será do ar e das paredes que te ouvem. Porém, enquanto o pensas, é só teu.

Sobe o estrado, as cortinas clamam que as deixes subir. As hostes aguardam-te ardentemente, sôfregas pelo que representas.
Representa o teu mundo, representa de onde vens e no que acreditas.
Nunca representes quem és, pois nesse momento deixarás de sê-lo para ser só mais um actor.
A cortina chama, consegues ouvi-la?
Vai e brilha.
Não pares que se o fizeres cairás.
Se caíres, levanta-te.
Como sempre, rumo à Ribalta.