quinta-feira, 25 de junho de 2009

Chove

Tinha uma homenagem à serventia na entrada.
Respiro fundo e sigo em frente. É a primeira vez que venho aqui, não estou muito impressionado. É a oportunidade de uma vida, penso. Não me anima muito, não sinto a diferença no corpo nem na mente. Começo a correr e eis que estou pior do que pensava. Uma volta, apetece-me desistir, duas voltas, parece o inferno, três voltas, ainda só vou a metade e já estou de rastos não vou conseguir, quatro voltas, preciso de água, já sinto o catarro a chegar à boca, a bloquear-me a faringe, a dizer-me o quanto sou um preguiçoso, sem vida, enterrado em vícios, cinco voltas, as minhas pernas estão como novas, a minha caixa torácica ameaça rebentar e o meu estômago revolve as minha entranhas. Bela ajuda, penso novamente.
Última volta, já metade dos concorrentes acabaram, já quase só tenho mulheres atrás de mim. Tenho 2 minutos para acabar e conseguir pelo menos manter-me na corrida. Uma corrida que me pode tirar da corrida, que ironia.
Num último suspiro de orgulho e necessidade, acelero o passo. Todo o meu corpo entra em ebulição, o meu coração está, concerteza, no limite da sua capacidade contráctil, levando a minha cabeça a constantes e repetidas explosões atómicas de novo sangue mal oxigenado, contaminado com nicotina e monóxido de carbono.
Volto a pensar, não posso, não consigo mas lutei de mais para aqui chegar, não vou deitar para o lixo tudo aquilo. Vou deixando restos do pequeno-almoço pelo caminho enquanto me esforço para manter o ritmo.
Cem metros, não posso desistir agora.
Acabo, ouço o tempo. Não há mais tempo na minha mente. Passei. Passei. Passei. Foi então que, sem aviso prévio, sem que me apercebesse, paguei o preço de tantos erros: o meu estomâgo retraiu-se até à sua capacidade máxima, revolveu-se com as outras entranhas e caí exausto.

Tenho de ir buscar o passe, mesmo sem dinheiro para o pagar. Penso nisto enquanto fingo passar o cartão sem dinheiro na máquina, aproveitando-me de uma face descontraída e do tumulto que entra comigo no autocarro.
A mãe deve estar a trabalhar, podia fazer-lhe uma visita, mas isso vai custar muito, não dá.
Desta vez não correu bem, o motorista obrigou-me a comprar um bilhete, não tenho dinheiro disse-lhe. Então vai ter de abandonar o veículo, diz-me nestas palavras caras como quisesse mostrar algum valor superior de competência, só porque não posso pagar. Tivesses a minha vida e ainda me levavas até casa, penso quando me faço à estrada. Lá no fundo, quase imperceptível, está o meu bairro.
Gosto de fazer esta parte do caminho a pé. Não tem nenhum promenor particularmente bonito, as Estações, terminal da carris e do metro, um monte de apartamentos empilhados em arranha-ceús onde não construíram a última falange e por isso chamamos de prédios. Eis a única diferença entre o Empire State Building e qualquer desses prédios: uma falange, a mais pequena, um promenor. Isso e o facto de só no ESB se ter pendurado o King Kong.
Parei por alguns instantes. Faço sempre isto quando passo a pé por aqui. Naquele 3º andar esquerdo mora o amor da minha curta vida. Detenho-me a olhar para a janela do escritório do pai dela, onde está o computador, a divisão em que ela me disse vamos dar um volta, para não mais voltar a ser bem-vindo naquela casa, a mesma janela para a qual fiquei a olhar durante algumas curtas horas, esperando que ela viesse à janela e, ao ver-me tudo não passasse de um sonho mau.
Chamava-se Ana e só por uma vez a tratei dessa forma, quando me deixou.
Sigo dizendo-me, tens de apagar da tua mente que ela ainda existe, andando por aí, traíndo-te por aí, com alguma besta musculada e sem cérebro que ande por aí como ela. E por aí vou andando e ligo o mp3. Muse ou Da Weasel?Muse, ainda tenho a imagem da Ana na minha cabeça, Muse sem dúvida.
Já passou uma hora desde que fui expulso do autocarro. Já estou quase a chegar a casa.
O meu velho prédio de esquina, foi construído sem licença mas como isso aconteceu há uns 50 anos ninguém se importa. As águas furtadas onde vivo com a minha mãe, são no quarto andar e, à imagem do prédio, foram remodeladas para habitação precária, sem autorização. A minha mãe não ganha 500 euros por mês e eu não arranjo trabalho. Em todas as entevistas me disseram: Acabou o 12º numa escola destas com uma média destas e vem trabalhar ara aqui? Você devia estar na faculdade, não atrás de um balcão! O que dizem os seus pais disto?
O meu pai não quer saber, a minha mãe mal ganha para comer e a faculdade é cara. Muito cara.
Abri a porta e virei à esquerda. Dei dois passos e virei à esquerda, entrando na cozinha à procura de alguma coisa que possa sacear as minhas necessidades. No frigorífico há margarina, um pouco de leite, dois ovos, um iogurte e 3 cenouras no fundo. Fecho a porta.
Decido olhar para os cestos empilhados que chamámos de despensa numa alusão nostálgica ao que já tivemos. Leite em pó, açúcar, chá, e especiarias. De repente vejo-as. Bolachas. São da pequena, não posso. Antes eu magro que ela, inocente.
Vou para a sala com uma cenoura meio lavada, meio descascada, crua pelo todo.
Sento-me no sofá e ligo a televisão. Zapping interminável por 4 canais televisivos de programas humilhantes e muito pouco evoluídos, enquanto mastigo o que ainda sobra da cenoura que não devorei sôfregamente.
Puxo de um cigarro e abro a janela. Abro os pulmões e puxo um bafo. O fumo dos meus pulmões engana o meu estômago e a dor que a cenoura não curara cedia finalmente.
Minha mãe, o que nos aconteceu?
Adormeço sem me aperceber. Se sonhasse também não me aperceberia. Não sonho.








Levantou-se da cama. Cedo como usual, sem despertador como usual. Fez a barba e vestiu o fato de treino, só as calças, e uma t-shirt branca com algum desenho, provavelmente publicidade, daquelas que se oferecem nas campanhas de rua.
Dirigiu-se ao quarto do fundo e entrou. À sua frente, a cama vazia mas feita, como se faltasse ali um pedaço, como se quem não se deitou ali naquela noite, tivesse deixado ali um pedaço da sua presença, por motivos que não interessa revelar para já. Como na vida, nem tudo são perguntas directas, nem tudo são respostas directas. À direita, encostada à parede em toda a largura, outra cama, esta ocupada por um indivíduo. Tinha cabelo castanho escuro e castanhos escuros eram também os olhos escondidos por trás das pálpebras cerradas pelo sono. Devia ter mais de metro e meio mas tinha menos estatura que o observador que tinha talvez metro e setenta. Era jovem, talvez treze talvez catorze. O observador há muito que perdera a forma física jovial dos dourados anos de um jovem adulto, embora já tivesse estado menos apresentável. Conservava agora meras recordações das dificuldades em que se embrenhara. Eram ambos homens, um feito, outro a fazer-se.
Acordou o jovem:
 Jean, acorda! Vem para a mesa que eu já preparei o pequeno almoço.
 Não – disse ensonado o miúdo embora o tivesse feito por, de olhos entreabertos ter visto as calças de fato de treino do pai, sabendo assim o que lhe reservara para esta manhã.
Reiterou o pai:
 Vá levanta-te que temos que sair.
Se dúvidas sobravam na sua mente, dissiparam-se depois daquela frase. Abriu os olhos e disse que já ia.
Ficou por instantes fitando as estrelas de plástico que cobriam o tecto do seu quarto. O fundo verde nada ajudava na criação de um espaço em miniatura que, por vezes, tentara idealizar. As paredes já tinham sido brancas, depois azul claro, depois branco novamente e agora este verde alface que parecia escolhido a dedo por uma menina de 6 anos.
Escolher. Nunca o pude fazer, na verdade. Sempre escolheram por mim e, quando me atrevi a tentar fazê-lo fui sempre admoestado. Sinceramente, tenho medo de que, se alguma vez me for permitido fazê-lo, não seja capaz de confiar nas minhas escolhas.
Absorvido nestas palavras quase que se esquecera do movimento que tornara hábito, quase ritual imprescindível, de levantar ligeiramente a cabeça e olhar para a cama do outro lado do quarto. Fê-lo Como sempre estava vazia.
 Um dia perco a esperança – pensou.
A cama vazia, ostentava ainda as recordações e os pertences de quem lá dormira durante largos anos. Um chapéu de escuteiro, um quadro com nós de escuteiro, um lenço velho e gasto de escuteiro. À cabeceira um chapéu, símbolo de uma vida passada, de uma vida recordade com saudade, inevitavelmente abandona sem vontade, como acontece com tudo o que nos desperta memórias , como acontece com tudo o que sentimos falta. Na mesa de cabeceira, livros. Autores nacionais e estrangeiros, alguns clássicos outros porém, novatos.


Não te vais deitar? - perguntara-lhe o pai naquela noite quente de verão, ao vê-lo calçado e com duas mochilas preparadas, como se fosse de viagem, como se tivesse apenas feito escala naquela que não seria mais a sua casa, para partir para outra viagem, acabado de regressar de uma outra, muito mais breve, perceberia eu depois.
Julgo que nem ele se dera conta da dimensão do passo que dera, do que acarretaria para o seu futuro próximo. Tinha a mente focada no seu futuro longíquo, naquele futuro em que nos vemos como homens de rugas vincadas na pele de muitas primaveras e temos orgulho por tê-las conquistado ao tempo e ao mundo.
Ele olhava, pela janela aberta da cozinha, respondendo sempre no mesmo tom irónico e provocador, sempre a mesma resposta, sempre à mesma pergunta. Olhava, e não desviava o olhar por nada no mundo, como se esperasse impacientemente alguém. Respondia, irónico, que ia dar uma volta. Continuava a olhar.
A Mãe chegou. Vestida à pressa, depois do meu irmão a ter acordado, sobressaltada, sem saber o que pensar, apenas fê-lo. À risca, como se de um caso de vida ou de morte se tratasse, chegou na hora, nem mais nem menos.
O filho deste homem, pegou nas mochilas e dirigiu-se para a porta. Finalmente desviara o olhar e, em vez de o fixar na ameaça que o pai lhe apresentava, fixou-o em mim, tenho a certeza, durante uma parcela ínfima do tempo que naquele momento teimou em avançar. Nesse olhar, não disse nada, não mexeu um músculo, limitou-se a olhar e disse tudo. Olhei-o e ele desviou a cara, ciente de que eu compreendera. Olhou então para o pai, tomando noção das palavras que lhe dirigia, palavras que tinham sido ruído de fundo até então, que tinham desaparecido naquele instante, à instantes atrás.
Fixou-o como sempre temera e pude ver a metamorfose que se operava ali. O aprendiz que superou o mestre e o mestre que não aceita o crescimento do aprendiz. Vi como o meu irmão se tornara gigante, aos pés do diminuído pai. Espumava dos cantos da boca como sempre o fazia quando nos batia enraivecido. O meu irmão, olhou-o mais uma vez como que esperando algo. Nada aconteceu. Escorreu-lhe uma gota de gorda tristeza pelo meio do olho, mostrando a todos que a vissem que saía sem vergonha, que naquela porção de água vivia todo o sentimento de um homem cansado, de um homem desiludido. Virou costas e saiu. Não bateu com a porta, apenas saiu como se sai de um restaurante depois de agradecer ao empregado, como se sai de casa para um dia de escola depois de se despedir dos pais, com a nuance de que, ao ouvir o trinco estalar fechando a porta, ficou um momento imóvel, com a mão presa à maçaneta da porta. Numa invocação última de nostalgia, de perda, de partida, de caminho, de viagem, de força e largou-a. Na rua não olhou para trás, mas eu sabia que a sua consciência estava ainda no lar que voluntariamente fora obrigado a abandonar. “O que importa é partir, não é chegar” repetira-me vezes sem conta, quando citava grandes poemas que lera. Sempre adorou poesia. Saiu e, armado da sua confiança de marinheiro, fez-se ao mar que encrespava sem temor, partiu, para não o voltarmos a ver dentro destas quatro paredes verde alface.
O Carro da Mãe desapareceu na curva. Cai o silêncio na rua e, pela primeira vez em muito tempo, fez-se noite no meu quarto. Pela primeira vez em muito tempo, o meu irmão não estaria ao meu lado, impedindo que a noite se apoderasse daquele espaço que costumava ser nosso. Não dormi e não chorei. As luzes acesas diziam que o meu pai também não.

A voz autoritária chamando por ele despertara-o do sonho que teimava em tomar conta de si, vezes de mais, repetidamente.
Quando é que isto terá fim? - perguntou-se.
Obrigado a libertar a reflexão matinal que nos é característica, levantou-se.

Hmmm

Quando acordo fico sempre pensativo, filosófico até. Penso. Sei que existo ou, no mínimo, acredito que sim. Almejara alcançar a plenitude e, com ela, a afirmação do ser que almejei também ser. Porém, faltou-me um pouco mais de céu, sendo no entanto azul em vários panoramas. Faltou-me um pouco mais de sol para arder, naquela luz vermelha e dourada, quente, sem fogo. Tudo em mim sofreu forte abrasão.
Quando era ainda mais novo, costumava ouvir temas no pequeno rádio que tinha na mesa de cabeceira. Que será feito dele? Era velho e preto, sem duas peças, ou melhor dizendo, sem uma peça e com outra sem funcionalidade. Passo a explicar. O botão que ligaria uma luz no visor de modo a possibilitar uma consulta nocturna do andamento da noite estava em falta. A roda de plástico que permitiria aumentar o volume, estava solta, rodava sem acção, sem produzir nada útil além do som rouco de duas peças rangendo.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Não vai mais o Lobo uivar para a Lua azul

Não importa mais a nossa cor, querendo tu ou não.

Diz-me então, qual é a tua história? Diz-me então, quantos inocentes deixaste para trás? Não dizes? Eu não insisto neles, mas diz-me, qual é a tua história?

A tua maquilhagem faz o teu sorriso perdurar ocultando a mágoa. O que aconteceu? Outro romance falhado? Uma e outra vez? Será que alguém sabe o que vivemos?

Eu tentei, mas na verdade, só quero ser livre.

Ascenção e quedismo sem pára-.
Nem tudo é um mar de rosas, Nem tudo são versos e prosas.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Coisas Soltas

“Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo, desta vida, descontente
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.


…Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te
Quão cedo de meus olhos te levou”.

Luíz Vaz de Camões, Sonetos

Estás a chamar-me? Estás a tentar alcançar-me? Eu estou a tentar alcançar-te…

Eu sinto a tua dor, sente também a minha. Vamos entrar na cabeça um do outro. Só para ver o que descobrimos. Só para ver como vemos, vendo pelos olhos um do outro.

Podia chamar-te Pátria minha, chamar-te o mais lindo nome Português, forte como o amor de Pedro por Inês. Como dizer? Um coração fora do peito. Gostar de ti é um poema que não digo. Gostar de ti é um poema que não escrevo. Pois não há forma, não há verso, não há mundo para este fogo. Como dizer? Um coração fora do peito.

Deus, que te alargou de mim, que te encurtou a ele, negando-me a suprema poesia que eu almejava, fê-lo. Meu irmão de sangue, dizem os antigos, se fores capaz, se tiveres a delícia de possuir um coração, se fores capaz de ceder à mão de quem te embala, se fores capaz de falar com o silêncio perturbando a razão que te guia, então GRITA!

Minha Dinamene, Tin-Nam-Men, Portas do Sul, Porta d Paraíso, recolhe-me ao abrigo que te votaram e rapidamente dá-me a entrada no mundo em que vives que me não deixam passar.

As ondas das eras, não as do mar, levaram-te para lá do meu conhecimento e está agora nesse lugar teu, onde eu não almejo chegar por declarado realismo. Dá-me o prazer de te ver um pouco de fora dessa esfera. Eu sinto a tua dor, sente também a minha. Vamos entrar na cabeça um do outro