domingo, 14 de março de 2010

Do rascunho

30 aglomerados de palavras.
Desde o dia fatídico, o dia em que a página em branco deu sustento ao corpo de palavras que infinitamente jorram, 30 aglomerados de palavras.

É então...
Toda a minha escrita foi feita de rascunhos. Não falo da pilha de folhas amarrotadas com rabiscos frutos de uma qualquer arrogância intemporal de quem se julga sabedor do que é segredo e sagrado. Pilha que minha mãe pacientemente recolhe e deita fora.

Acho que nunca serei capaz de lhe perdoar tal atrocidade que condeno e consinto. Principalmente, nunca serei capaz de me perdoar pelas mesmas razões.
Cada bola de papel amachucado, renegado e votado ao esquecimento é um filho meu. Filho meu que te neguei. Pela vergonha e perpotência, votei-te ao esquecimento quando não eras mais que umas células alfabéticas, talvez um par de membros, sempre sem coração para me sentir, sem cérebro para me perceber, sem mente para me julgar.

Talvez por isso consiga adormecer quando a lua vem e me lembra dos momentos das vossas imensas concepções. Lua, sem dúvida mãe dos meus rascunhos. Mãe que eu não consulto. Mãe, de quem me limito a aproveitar os seus deleites.

Talvez por isso, quando já és algo de que não me possa desfazer, me limite a esconder-te a um canto, numa qualquer pasta que ainda não tem pó, mas empoeirada será. Ao Tempo, ninguém interrompe o curso.

Escondidos para sempre, para minha vergonha, para minha arrogência.

Na verdade, pedaços de folhas e esforços dispendidos em vão, serão sempre mais meus do que todos os filhos que o meu corpo humildemente repõe de acordo com a minha vontade. Todos os filhos desperdiçados sem rancor, repúdio ou arrependimento. Meios-filhos que nada seriam sem outros 23 traços de um cariótipo.

Estes, nascidos da simbiose da minha mente com a pureza láctea da folha em branco, serão sempre meus, só meus. Renegados assim fiquem os que se revêm apenas na brancura prostática que ninguém quer lembrar.


E assim, com rascunhos, escrevo mais uma linha iberbe, no amadurecimento que virá com os novos frutos da Primavera.

Os livros são papéis pintados com pinta. OS Rascunhos, são os homens.
Que à minha morte possa dizer que mais não fiz que rascunhos, obras inacabadas, talvez, mas riscadas, corrigidas, alteradas, e modificadas num frenesim sem fim, para que no fim fossem fiéis À minha consciência, rebatendo todos os contornos do escritor plástico e colagénico, que insiste em afirmar-se no texto lapidado.
Depois, guardados a um canto redescobrissem o Homem por detrás do Artista, as múltiplas personalidades que todos ansiamos mas que estão reservadas aos predestinados. Pessoa que toma a palavra.

Depois, fossem a minha marca, a minha continuidade, a maior garantia de que cá estive. Que levem os meus ensinamentos, os meus saberes e conhecimentos. As minhas emoções.

No fundo, sejam os filhos orgulhosos do pai que deles teve vergonha.


É como um rascunho que vivemos 2010.
E voltamos às origens. Voltamos a nascer.


Valete F.:

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