Os elementos complementam-se. Frenética e apressadamente. Beijam-se e tocam-se. Frenética e apressadamente.
Num reluzir de pele brilhante, encaixam-se. Frenética e apressadamente.
Explodem-se e emulam-se num combinar brilhante da palete amarela, laranja e vermelha. Na paleta do fogo.
Os seus corpos ou o que quer que sejam neste momento cruzam-se e unem.-se numa reacção química pouco definida e infinitamente instável. Tanto quanto a frequência do seu início e do seu fim.
O calor que deles resulta consome-os, rouba-lhes a mesma energia que o originou.
Eles amam-se na chama que uma faísca, eléctrica ou química, ninguém sabe precisar, criou. Um breve instante que desencadeia este fervor físico, psicológico e espiritual até consumir os três e consumir-nos a todos, cansados, febris e incandescentes. Rejuvenescidos.
Posso ver os seus cabelos roçarem o peito dele, os olhos de ambos reviram alternadamente, em harmonia e alternadamente outra vez.
Ela brilha aos meus olhos. Quase que posso ver-me no reflexo sinuoso da sua pele, das suas formas.
Sinto-a intensamente, percorrendo-me a medula espinal, numa presença etérea que permanecerá forte e perdurará. Sei-o de experiência própria. Com ela, com todas. Mesmo quando o coração não perde o sono, o corpo apega-se e emula-se, puxando pelo miocárdio que, malvado sejas, faz parte do meu corpo.
Freneticamente, beijamo-nos enquanto me foco na gota de suor que escorre entre os seus seios firmes e jovens. Também suamos no fogo que criámos e os humores que partilhamos fundem-se numa razão proporcional à fundição dos nossos corpos e somos mais unos do que alguma vez ambicionámos. Na razão inversa da distância dos nossos pensamentos.
Amo-a. Só não sei o que isso siginifica.
Ele olha-se no meu corpo.
Sei que neste momento sou dele e ele me pertence. Sem escalas sociais, invariável à bebida que me pagou ou à mão que deixei, esquecida em cima da sua perna ou demorada e abstraída no seu peito e nos seus ombros. Apesar do apertar sanguíneo e mental da genitália, dos nervos que agora me garantem que ele é meu e, neste momento, lhe pertenço.
Penso para além.
Anexámos o coração fingido que ele não se rendia incondicionalmente com muita vontade de o fazer, para bem do nosso ego e, nem por isso, deixo de o sentir falando em nós quando nada disso existe excepto agora.
Excepto neste tempo em que somos o fogo e a chama um do outro e nos comburimos e combustamos mutuamente, ele é ele e eu sou eu.
Nem por isso o meu coração deixará de arder um pouco mais, deixará de carbonizar mais um pedaço, num acto prazenteiro de auto-flagelação a que nos dispomos na esperança de que sejamos feitos um para o outro enquanto fingimos não entender que só os nossos corpos encaixam.
Porque os corpos não somos nós mas sim os nossos corpos, com cérebro e miocárdio mas sem coração e sem mente. Sem Alma. Porque o nós não existe.
Eu existo. Ele existe. Em todos os tempos e modos verbais nesta e em todas as línguas, sábias ou, por ora, não sábias. A língua que lambe mas não sabe o que dizer, nos lábios que falam mas não fazem acontecer.
Nós não existimos e eu sei disso mas não quero saber. Eu tenho futuro mas só quero pensar no presente pois ele é o meu presente, mesmo não sendo nós. O futuro é incógnito e para incógnito, em matéria de alcova, bastam os filhos de mães solteiras e pais do outro nome que, não o sendo, fizeram por isso.
Prefiro tê-lo nos meus lençóis do que não o ter em lado nenhum, mesmo sabendo que nunca tomaremos banho juntos nem passearemos de mão dada nem trocaremos juras de amor infantis e irreflectidas, olhando o cosmos, ouvindo o mar, saboreando a boca um do outro num areal perdido da memória dos Homens.
E o meu coração queima enquanto os nossos corpos se fundem como elementos, numa pira de tecidos e suor, como amantes proibidos de um amor shakesperiano.
E voltei ao nós. Para mal das minhas virtudes.
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