domingo, 26 de junho de 2011

Cérebro e Etanol

- Consegues falar a minha língua?

- Claro que sim! Tenho língua como tu, talvez maior ou mais pequena ou de uma tonalidade diferente assemelhada pelas sevícias que ambos lhes provocamos mas, na generalidade, tenho uma língua capaz de imitar os mesmos movimentos da tua. Os mesmos músculos, as mesmas acções e, mais ou menos, as mesmas sensações.

Que estupidez de pergunta, sem dúvida.

Mais estúpido ainda, é assumir que as capacidades que nos são comuns podem ser entendidas pelos cérebros comuns, moldados de formas em nada idênticas.

- Consegues falar a minha língua?

- Claro que não! Sou capaz de emitir sons que talvez se confundam com aqueles que tu emites mas, mesmo após intenso treino, serei capaz de me exprimir nesse dialecto a que chamas teu. Somente quando um dia me propuser a entender os meandros desse linguajar que me soa a bárbaro poderei falar a tua língua. Conversar nela.

Contudo, se a Torre de Babel efectivamente existiu e ruiu para a falência dessa arrogância humana que mais não é do que a tentativa última do ser de se erguer, depois de refundidas todas as depressões que o condicionam, podemos dizer que Deus falhou, se existir.

Ora pois, quando eu não entendo o que dizes e tu não entendes o que digo, é o momento em que nos entendemos perfeitamente. Sem artifícios de linguagem, sem entoações, sem segundos sentidos. Só a linguagem deste e desse corpo. Desta e dessa face. Não deixamos o corpo mentir e não queremos que a face o faça.

Todos os trejeitos são genuínos e concretos pois não há palavras que as possam explicar. Somos claros, concisos, sinceros e fiéis.

Quando o fizeste eu sei o que disseste e vice-versa, por mais que o teu cérebro e o meu se queiram apartar.

Onde há maior sinceridade senão na penumbra, nos olhos reluzentes de dois amantes? Escusas responder, pensa com calma.

Até as palavras chegarem e desmentirem tudo, nada existe mais sincero que isto.

- Não te posso dar nada - dizem, depois de terem dado tudo.

- Não penses no amanhã, que o hoje ainda não passou e chora, chora no meu ombro. Chora porque, para nós, Platão estava errado. Chora porque, amanhã, deambularemos outra vez, na busca a que fomos condenados. Se ao menos eu não pudesse falar a tua língua....

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