domingo, 26 de junho de 2011

Um texto onde se ultraja Camões, Pessoa e todos os autores Clássicos, não necessariamente por esta ordem.

A combustão de dois elementos, mais que um caso ímpar em Ciência, é uma semente literária.

Nesse plasma indefinido a médias temperaturas à nossa escala nasceram paixões, construíram-se fanatismos, formaram-se, desintegraram-se, anexaram-se e capitularam países, escreveram-se, comparações e metáforas e hipérboles e outros tantos recursos estilísticos excepto este mesmo que acabei de usar.

Da luz ou do brilho, do calor ou da cor, talvez do medo que desperta ou do afago que emana ou, quem sabe, da intensidade da noção imperfeita e indefinida do inatingível que nos atravessa a mente, fogo produz sobre nós um efeito tão múltiplo, diversificado e diverso quanto as suas características com as variações que estes sofrem.

Acendo um cigarro. (Adoro fumar enquanto escreve. Nunca entenderei porquê: É pouco prático, a cinza cai nas folhas enquanto escrevo ou quando me distraio e o cigarro já queimou de mais. É inquietante quando um bafo mais comprido me faz parar, repensar e em última instância, acaba por me levar o pensamento que originou tudo isto. Nem por isso deixo de aproveitar esta benesse do Destino que Álvaro de Campos imortalizou. Porém, aqui estou, fumando e escrevendo, preso neste limbo entre o conforto e uma necessidade de fusão do fumo do tabaco com o meu mais profundo intelecto.

Talvez seja isso mesmo, a fusão mais real e perfeita metáfora da dádiva de Prometeu com o orgânico lixo oferecido aos Deuses dos pagãos.

Talvez encontre nesta destruição do meu ser de animal o antagonismo para o aperfeiçoamento da psique. Pelo fogo.)

O cigarro foi-se e, dentro da minha cabeça, sinto um bombardeamento londrino de ideias.

Como a comunhão do pão e do vinho ou o que quer que outras religiões usem e que eu desconheço para atingirem a perfeição espiritual eu comungo o fogo.

Melhor, o que resta dele, apenas a sua lembrança.

Como pude eu, que sempre fui fraco e frágil, submisso e displicente, ousar sequer pensar em comungar-me com a mesma força que gera vida, gera as estrelas. A força que, em última análise, gerou o Universo?

Inspiro-me neste fogo balançante das fogueiras da minha memória enquanto penso que não poderá haver morte mais digna, se é que existe alguma, do que morrer pelo fogo, imolado, pagando com a carne as desenvolturas oferecidas à mente pela mão punida de Prometeu. Um pouco à semelhança do que dizem dos contratos de alma com o Diabo: Um benefício que ninguém conseguiria alcançar de outra forma em troca de um preço que ninguém quer pagar. Talvez por isso esta alegoria venha sempre acompanhada de fogo.

Reponhamos a verdade:

A metafísica não é mais uma consequência de estar maldisposto! Musas, Tágides e demais infâmias não são mais do que meras consequências do desconhecimento e da ignorância! A dor, a angústia e todos os sentimentos que inspiram o Poeta mais não são do que materializações mentais de um ardor que só se sente, quando não se é um fingidor! São Fogo, a derradeira, imprevisível e imutável fonte do saber, ou pelo menos da coragem para desafiar a imponência!

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