terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Que passado?Que FUTURO?

E Tudo se reflecte à pequenez dos frustrados que nunca tiveram nem o valor nem o potencial para ser quem foram Álvaro Cunhal, Mário Soares, bem como Diogo Cão ou Norton de Matos. Mais ainda reflecte o juízo prepotente e preconceituoso da dignidade e legitimidade da nacionalidade portuguesa. Os Homens que fizeram a nossa História não o merecem, mas o Zé do Telhado que matava pessoas no aqueduto já nem interessa. Porque somoso nós, o grãozinho de areia mais merdoso e pequeno da ocidental praia lusitana que temos a competência de julgar quais rochas mereciam ter ficado exiladas noutros cantos deste mundo.
Por último e o mais absurdo de adulto que, caso um assistente social lesse tais palavras, concerteza moveria esforços para retirar a custódia a este pai, é a incapacidade ou desconhecimento não consigo averbar qual será, dos mais que badalados "lados" da História.
Exemplifico: Se Hitler tivesse vencido os Aliados ele teria escrito a História na sua visão anti-semita e não a visão americana de Liberdade. Napoleão que foi visto como um traidor, o que será que se diria dele caso tivesse vencido Waterloo? Aqui no nosso pequeno pedaço de terra, D. Afonso Henriques, pai soberano de todos quantos vibram cantando a Portuguesa, que seria dele se tivesse perdido em S. Mamede, ou D. João I e Nuno Álvares Pereira se perdessem em Aljubarrota. Eu arrisco, na História escrita pelos Espanhóis vencedores seriam traidores. Contudo são heróis nacionais. Não seria uma injustiça? É um direito da guerra e das conquistas: Quem vence, escreve a História à sua maneira e sem consultas.

Por último, queria acrescentar que as intermináveis falácias históricas fazem com que esse texto só cause impacto aos olhos de quem não quer ver mais nada.

Despeço-me lembrando aos autores deste texto que a Revolução dos Espinhos nas Suas Gargantas foi apenas uma suave recordação dos Espinhos em qwue sempre viveram os que se vergavam pela sobrevivência. A Revolução dos Cravos é destes últimos. Dos que trocavam o suor do seu corpo por uma côdea de pão dura. Dos que tinham tudo para ser mas não puderam porque o peso da fome, da miséria e do desespero falou mais alto. A Revolução dos Cravos é dos que são quando os seus pais não eram e que o são porque foram à luta, que deixaram no campo o seu sangue e que sempre venderam cara a derrota.
A Revolução de Abril é o abolir do Português que apenas precisava de saber ler escrever e contar. Desde que permanecesse acorrentado às sombras da sua caverna. Vale sempre a pena lembrar Humberto Delgado, o Único Verdadeiro e Democraticamente Eleito Presidente da Républica, Antigo Aluno do Colégio das nossas vidas.
A Revolução dos Cravos é a revolução dos oprimidos. É uma Tea Party à Moda Lusitana. Com a Revolução dos Cravos eu, filho de um Agricultor, jamais poderia tornar-me filho de um advogado muito menos estabelecer-me entre uma elite de farda cor de pinhão onde provei que estava à altura independentemente do quão sujas de terra andassem as mãos dos meus antepassados. 30 anos antes e seria agricultor também, que justiça há nisso?
A Revolução dos Cravos foi ganha por nós, os que lutam para ser e que não têm nada garantido, com cada dia sendo uma incógnita.
Vencemos e com 35 anos passados já estava na altura de se habituarem. Vencemos. São os novos letrados que escrevem a História desta vez. Com toda a legitimidade.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

You make it real?

Se minha Mãe pudesse ler isto, diria para acreditar nos sonhos, que eles são a voz do nosso ser, ou com ela costumava chamar, a nossa alma.
Se meu pai quisesse ler isto diria para seguir o certo e seguro, que no fim há pó e ninguém se lembrará de mim.

Toda a minha breve vida foi cercado de oportunidades. Não deixei escapar uma. Porém, numa última, preferi o seguro à aventura. O afago de uma vida confortável e prevista mas de futuro capacitado à desmedida potencialização com os riscos que daí incorreriam.
Voltei atrás e comecei não do zero, mas do menos um. Com feridas e rancores cujos efeitos ainda não foram totalmente postos à prova.

Ninguém tem um lugar reservado na história, mas não me deixarei levar por pequenos papéis. Como um actor de grande calibre sei que tenho lugar na broadway, mas o caminho até lá é duro e negro.

Deitei um ano e meio de trabalho fora. Tudo para te seguir, para que me seguisses.

Reduzindo a elevação da escrita mas reduzindo-a ao seu mais primário papel de expressão humana cito Keidje "Valete" Lima: "A minha mulher além de bonita, é inteligente e poliglota".

Sinto que és a D. Luísa que eu preciso para sair de Bragança e reclamar Lisboa. Não creio que estejas disposta a tal. Creio sim, que o seguro te dava maior interesse.

E quando chegarem os Espanhóis? Uma coisa de cada vez...

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Porque não haverá tempo para recordar?

" Era uma vez uma colónia de férias. Chamava-se Feitoria!
(...)
- Porque estás a fazer isto?
- Porque tenho a certeza que farias o mesmo por mim!
E lá iam os dois quase a chegar ao Lidl para comprar umas lasanhas.
(...)
Tudo o que o Colégio te tira hoje, no futuro dár-te-á em dobro. O hoje está a passar e o futuro vem aí. Tenho a certeza que tens razão, mas vamos esperar para ver..."

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Tu não és o guetto, tu não és do guetto, tu és maior que o guetto!

Trocado por marfim...

no chão implora
um pai que chora
filho chegou a hora

Filhos do guetto....

Serás livre quando superares essa verdade que te aperta
E quando encontrares a saída desse guetto que te cerca:
Sais do guetto quando vês mais que a tua ruela,
Quando deixas de ver a cadela
E vês a donzela que há nela...

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Pois é

A vida está uma...Pois é...

Tenho a mão vazia dentro do meu bolso, que está tão vazia como a minha mão.
Aperto o vazio tanto quanto posso, nesta encruzilhada, QUE VIDA DE CÃO!

Todo o santo dia me enchem a cabeça de velhas fresas feitas, que manipulação.
Falam de milgares à espera que aconteça e vamos desvivendo, QUE VIDA DE CÃO!

Num sonambulismo telecomandado, cumprimos os dias em resignação.
Não há luz no túnel: É o nosso fado.
Presos por uma trela, QUE VIDA DE CÃO!

Passam-se as promessas por nunca cumpridas, enganosas frases dão-nos como explicação.
A minha vida é so um número entre tantas vida, resta-me ser vivo como é o cão!

Estou preso por uma trela vivo uma vida de cão....

domingo, 4 de outubro de 2009

Abandona-me

Por teu livre pensamento, foram-te longe encerrar, onde só ouves o vento, onde só ouves o mar.

Pelo menos ouves o vento, pelo menos ouves o mar.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Réponds à ma trendesse

As sementes tornam-se árvores
As crianças tornam-se Homens

Buscai a Causa Maior

domingo, 20 de setembro de 2009

O inverno do nosso descontentamento

O primeiro que disse que os Homens comunicam deveria ser postumamente lapidado.

O tom, a entoação, a expressão facial, mudam tudo o que podemos imaginar real (Real, o rubor na face dela depois de uma noite de sexo, com o brilho que emana quase que vejo nele o meu reflexo, o cheiro da sua pele, o seu sabor a mel...é real) numa comunicação.

É então que dás m passo em falso (mais um?) e o que julgavas ser inconsequente atinge proporções que não imaginarás nunca, mas sentes. E choras. E sangras. E choras sangue. Abres as tuas veias aos céus e dizes, este o meu sangue, bebei-o, esta é a minha carne, comei-a, no céu e na terra, agora e para sempre, com a graça do espírito santo. E o céu dá-te a prova de que não quer saber. Se quisesse, ter-se-ia aberto em glória para os seus filhos, fazendo-os amarem-se e multiplicarem-se, ressuscitando neles o amor do Senhor à semelhança da vida em Lázaro.

deixou-me a pensar, e eu já não tenho a certeza de nada, ou quase nada porque já vi de quase tudo nesta vida mas auqeles que amamos, seguimos, respeitamos, é uma certeza garantida.

Só quero poder dormir em paz de novo. Tudo o que vier depois, será conquista, será loucura.

Não sei se quero que me mates, não sei se isso nos matará, quanto mais matares-me de novo, a verdade é que só tu para me acalmares neste momento, já tentei tudo o resto. Cigarro a cigarro, até acicalhar sem limites, tenho a tua foto à minha frente e parece que. de repente, sorriste para mim.

Real seria somente o rubor na tua face, desconhecido até ao infinito do sonho, neste inverno sem glória e sem sentido.

At least, saio mais sério e muito mais triste. O remorso é uma coisa tão incrível, as imagens orgganizam-se de forma acessível...

Is this our last embrace? i...

Vamos ver as estrelas?

Resistance

Is our secret safe tonight
and are we out of sight
or will our world come tumbling down?
Will they find our hiding place
is this our last embrace
or will the walls start caving in?

It could be wrong, could be wrong, but it should've been right
it could be wrong, could be wrong, to let our hearts ignite
It could be wrong, could be wrong, are we digging a hole?

If we live a life in fear
I'll wait a thousand years
Just to see you smile again
Kill your prayers for love and peace
You'll wake the thought police
We can't hide the truth inside

Love is out resistance, Muse in Resistance

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Sad sad Sad

Se conseguires olhar, vê
Se conseguires ouvir, escuta

in, Livro dos Conselhos


ponto prévio:não estou nada arrependido.

Partindo desta premissa é possível variar para muitos temas.
Começo assim:
Houve um dia em que Tudo Arde(u), e do blablabla nada sobrou.
Depois, de um gato escaldado por escritas com x's e juras de amor, cresce como quem sai novamente do ventre materno, mais sabedor, outro gato mas maltês tal como só no Alentejo à memória, e mesmo desses, só de Mau-Tempo temos história escrita e sabemos como acabou de corda velha na azinheira velha, velho ele também.
Mas também Mau-Tempo se fixou e fez família: Nasceria o novo Mau-Tempo, João de seu nome de direito. E eis a prova de que não temos eternidade na outra vida, esta acalmia não foi eterna. Correu maltês outra vez.
Sinto-me ultrapassado, acho.
Eu, que tanto dei, tanto lutei, por fim, termino assim.
Por dias de penúria e mentira, buscando aceitação e o momento ideal(?), segui, resignado ao papel que me destinavam (que havia acontecido comigo, onde estão as rédeas da minha vida?)
Depois do caminho desbravado é fácil seguir o trilho, em tudo, na família (ninguém imagina), no sexo, na vida.
Acho que em requisitos se preenchem como eu preencho julgando que julgo preencher.
Espero que não acabes assim. Continuo dizendo que não será aqui mas conheço-te demais para saber que não quererás acabar assim, por quanto te convenças.
Dizem que fiquei louco de repente. Fiquei, sem saber o que estava errado na minha vida, começando a eliminar o meu mundo, chegando por fim a conclusão que não queria.
What goes around comes all the way around says GOD by the hand of Simon called Peter.


Olavo Bilac, vocalista dos aclamados Santos e Pecadores e Ângelo César, O Boss, dupla inesperada mas de grande timing, Preto no Branco, mas tu não vais saber....

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Chove

Tinha uma homenagem à serventia na entrada.
Respiro fundo e sigo em frente. É a primeira vez que venho aqui, não estou muito impressionado. É a oportunidade de uma vida, penso. Não me anima muito, não sinto a diferença no corpo nem na mente. Começo a correr e eis que estou pior do que pensava. Uma volta, apetece-me desistir, duas voltas, parece o inferno, três voltas, ainda só vou a metade e já estou de rastos não vou conseguir, quatro voltas, preciso de água, já sinto o catarro a chegar à boca, a bloquear-me a faringe, a dizer-me o quanto sou um preguiçoso, sem vida, enterrado em vícios, cinco voltas, as minhas pernas estão como novas, a minha caixa torácica ameaça rebentar e o meu estômago revolve as minha entranhas. Bela ajuda, penso novamente.
Última volta, já metade dos concorrentes acabaram, já quase só tenho mulheres atrás de mim. Tenho 2 minutos para acabar e conseguir pelo menos manter-me na corrida. Uma corrida que me pode tirar da corrida, que ironia.
Num último suspiro de orgulho e necessidade, acelero o passo. Todo o meu corpo entra em ebulição, o meu coração está, concerteza, no limite da sua capacidade contráctil, levando a minha cabeça a constantes e repetidas explosões atómicas de novo sangue mal oxigenado, contaminado com nicotina e monóxido de carbono.
Volto a pensar, não posso, não consigo mas lutei de mais para aqui chegar, não vou deitar para o lixo tudo aquilo. Vou deixando restos do pequeno-almoço pelo caminho enquanto me esforço para manter o ritmo.
Cem metros, não posso desistir agora.
Acabo, ouço o tempo. Não há mais tempo na minha mente. Passei. Passei. Passei. Foi então que, sem aviso prévio, sem que me apercebesse, paguei o preço de tantos erros: o meu estomâgo retraiu-se até à sua capacidade máxima, revolveu-se com as outras entranhas e caí exausto.

Tenho de ir buscar o passe, mesmo sem dinheiro para o pagar. Penso nisto enquanto fingo passar o cartão sem dinheiro na máquina, aproveitando-me de uma face descontraída e do tumulto que entra comigo no autocarro.
A mãe deve estar a trabalhar, podia fazer-lhe uma visita, mas isso vai custar muito, não dá.
Desta vez não correu bem, o motorista obrigou-me a comprar um bilhete, não tenho dinheiro disse-lhe. Então vai ter de abandonar o veículo, diz-me nestas palavras caras como quisesse mostrar algum valor superior de competência, só porque não posso pagar. Tivesses a minha vida e ainda me levavas até casa, penso quando me faço à estrada. Lá no fundo, quase imperceptível, está o meu bairro.
Gosto de fazer esta parte do caminho a pé. Não tem nenhum promenor particularmente bonito, as Estações, terminal da carris e do metro, um monte de apartamentos empilhados em arranha-ceús onde não construíram a última falange e por isso chamamos de prédios. Eis a única diferença entre o Empire State Building e qualquer desses prédios: uma falange, a mais pequena, um promenor. Isso e o facto de só no ESB se ter pendurado o King Kong.
Parei por alguns instantes. Faço sempre isto quando passo a pé por aqui. Naquele 3º andar esquerdo mora o amor da minha curta vida. Detenho-me a olhar para a janela do escritório do pai dela, onde está o computador, a divisão em que ela me disse vamos dar um volta, para não mais voltar a ser bem-vindo naquela casa, a mesma janela para a qual fiquei a olhar durante algumas curtas horas, esperando que ela viesse à janela e, ao ver-me tudo não passasse de um sonho mau.
Chamava-se Ana e só por uma vez a tratei dessa forma, quando me deixou.
Sigo dizendo-me, tens de apagar da tua mente que ela ainda existe, andando por aí, traíndo-te por aí, com alguma besta musculada e sem cérebro que ande por aí como ela. E por aí vou andando e ligo o mp3. Muse ou Da Weasel?Muse, ainda tenho a imagem da Ana na minha cabeça, Muse sem dúvida.
Já passou uma hora desde que fui expulso do autocarro. Já estou quase a chegar a casa.
O meu velho prédio de esquina, foi construído sem licença mas como isso aconteceu há uns 50 anos ninguém se importa. As águas furtadas onde vivo com a minha mãe, são no quarto andar e, à imagem do prédio, foram remodeladas para habitação precária, sem autorização. A minha mãe não ganha 500 euros por mês e eu não arranjo trabalho. Em todas as entevistas me disseram: Acabou o 12º numa escola destas com uma média destas e vem trabalhar ara aqui? Você devia estar na faculdade, não atrás de um balcão! O que dizem os seus pais disto?
O meu pai não quer saber, a minha mãe mal ganha para comer e a faculdade é cara. Muito cara.
Abri a porta e virei à esquerda. Dei dois passos e virei à esquerda, entrando na cozinha à procura de alguma coisa que possa sacear as minhas necessidades. No frigorífico há margarina, um pouco de leite, dois ovos, um iogurte e 3 cenouras no fundo. Fecho a porta.
Decido olhar para os cestos empilhados que chamámos de despensa numa alusão nostálgica ao que já tivemos. Leite em pó, açúcar, chá, e especiarias. De repente vejo-as. Bolachas. São da pequena, não posso. Antes eu magro que ela, inocente.
Vou para a sala com uma cenoura meio lavada, meio descascada, crua pelo todo.
Sento-me no sofá e ligo a televisão. Zapping interminável por 4 canais televisivos de programas humilhantes e muito pouco evoluídos, enquanto mastigo o que ainda sobra da cenoura que não devorei sôfregamente.
Puxo de um cigarro e abro a janela. Abro os pulmões e puxo um bafo. O fumo dos meus pulmões engana o meu estômago e a dor que a cenoura não curara cedia finalmente.
Minha mãe, o que nos aconteceu?
Adormeço sem me aperceber. Se sonhasse também não me aperceberia. Não sonho.








Levantou-se da cama. Cedo como usual, sem despertador como usual. Fez a barba e vestiu o fato de treino, só as calças, e uma t-shirt branca com algum desenho, provavelmente publicidade, daquelas que se oferecem nas campanhas de rua.
Dirigiu-se ao quarto do fundo e entrou. À sua frente, a cama vazia mas feita, como se faltasse ali um pedaço, como se quem não se deitou ali naquela noite, tivesse deixado ali um pedaço da sua presença, por motivos que não interessa revelar para já. Como na vida, nem tudo são perguntas directas, nem tudo são respostas directas. À direita, encostada à parede em toda a largura, outra cama, esta ocupada por um indivíduo. Tinha cabelo castanho escuro e castanhos escuros eram também os olhos escondidos por trás das pálpebras cerradas pelo sono. Devia ter mais de metro e meio mas tinha menos estatura que o observador que tinha talvez metro e setenta. Era jovem, talvez treze talvez catorze. O observador há muito que perdera a forma física jovial dos dourados anos de um jovem adulto, embora já tivesse estado menos apresentável. Conservava agora meras recordações das dificuldades em que se embrenhara. Eram ambos homens, um feito, outro a fazer-se.
Acordou o jovem:
 Jean, acorda! Vem para a mesa que eu já preparei o pequeno almoço.
 Não – disse ensonado o miúdo embora o tivesse feito por, de olhos entreabertos ter visto as calças de fato de treino do pai, sabendo assim o que lhe reservara para esta manhã.
Reiterou o pai:
 Vá levanta-te que temos que sair.
Se dúvidas sobravam na sua mente, dissiparam-se depois daquela frase. Abriu os olhos e disse que já ia.
Ficou por instantes fitando as estrelas de plástico que cobriam o tecto do seu quarto. O fundo verde nada ajudava na criação de um espaço em miniatura que, por vezes, tentara idealizar. As paredes já tinham sido brancas, depois azul claro, depois branco novamente e agora este verde alface que parecia escolhido a dedo por uma menina de 6 anos.
Escolher. Nunca o pude fazer, na verdade. Sempre escolheram por mim e, quando me atrevi a tentar fazê-lo fui sempre admoestado. Sinceramente, tenho medo de que, se alguma vez me for permitido fazê-lo, não seja capaz de confiar nas minhas escolhas.
Absorvido nestas palavras quase que se esquecera do movimento que tornara hábito, quase ritual imprescindível, de levantar ligeiramente a cabeça e olhar para a cama do outro lado do quarto. Fê-lo Como sempre estava vazia.
 Um dia perco a esperança – pensou.
A cama vazia, ostentava ainda as recordações e os pertences de quem lá dormira durante largos anos. Um chapéu de escuteiro, um quadro com nós de escuteiro, um lenço velho e gasto de escuteiro. À cabeceira um chapéu, símbolo de uma vida passada, de uma vida recordade com saudade, inevitavelmente abandona sem vontade, como acontece com tudo o que nos desperta memórias , como acontece com tudo o que sentimos falta. Na mesa de cabeceira, livros. Autores nacionais e estrangeiros, alguns clássicos outros porém, novatos.


Não te vais deitar? - perguntara-lhe o pai naquela noite quente de verão, ao vê-lo calçado e com duas mochilas preparadas, como se fosse de viagem, como se tivesse apenas feito escala naquela que não seria mais a sua casa, para partir para outra viagem, acabado de regressar de uma outra, muito mais breve, perceberia eu depois.
Julgo que nem ele se dera conta da dimensão do passo que dera, do que acarretaria para o seu futuro próximo. Tinha a mente focada no seu futuro longíquo, naquele futuro em que nos vemos como homens de rugas vincadas na pele de muitas primaveras e temos orgulho por tê-las conquistado ao tempo e ao mundo.
Ele olhava, pela janela aberta da cozinha, respondendo sempre no mesmo tom irónico e provocador, sempre a mesma resposta, sempre à mesma pergunta. Olhava, e não desviava o olhar por nada no mundo, como se esperasse impacientemente alguém. Respondia, irónico, que ia dar uma volta. Continuava a olhar.
A Mãe chegou. Vestida à pressa, depois do meu irmão a ter acordado, sobressaltada, sem saber o que pensar, apenas fê-lo. À risca, como se de um caso de vida ou de morte se tratasse, chegou na hora, nem mais nem menos.
O filho deste homem, pegou nas mochilas e dirigiu-se para a porta. Finalmente desviara o olhar e, em vez de o fixar na ameaça que o pai lhe apresentava, fixou-o em mim, tenho a certeza, durante uma parcela ínfima do tempo que naquele momento teimou em avançar. Nesse olhar, não disse nada, não mexeu um músculo, limitou-se a olhar e disse tudo. Olhei-o e ele desviou a cara, ciente de que eu compreendera. Olhou então para o pai, tomando noção das palavras que lhe dirigia, palavras que tinham sido ruído de fundo até então, que tinham desaparecido naquele instante, à instantes atrás.
Fixou-o como sempre temera e pude ver a metamorfose que se operava ali. O aprendiz que superou o mestre e o mestre que não aceita o crescimento do aprendiz. Vi como o meu irmão se tornara gigante, aos pés do diminuído pai. Espumava dos cantos da boca como sempre o fazia quando nos batia enraivecido. O meu irmão, olhou-o mais uma vez como que esperando algo. Nada aconteceu. Escorreu-lhe uma gota de gorda tristeza pelo meio do olho, mostrando a todos que a vissem que saía sem vergonha, que naquela porção de água vivia todo o sentimento de um homem cansado, de um homem desiludido. Virou costas e saiu. Não bateu com a porta, apenas saiu como se sai de um restaurante depois de agradecer ao empregado, como se sai de casa para um dia de escola depois de se despedir dos pais, com a nuance de que, ao ouvir o trinco estalar fechando a porta, ficou um momento imóvel, com a mão presa à maçaneta da porta. Numa invocação última de nostalgia, de perda, de partida, de caminho, de viagem, de força e largou-a. Na rua não olhou para trás, mas eu sabia que a sua consciência estava ainda no lar que voluntariamente fora obrigado a abandonar. “O que importa é partir, não é chegar” repetira-me vezes sem conta, quando citava grandes poemas que lera. Sempre adorou poesia. Saiu e, armado da sua confiança de marinheiro, fez-se ao mar que encrespava sem temor, partiu, para não o voltarmos a ver dentro destas quatro paredes verde alface.
O Carro da Mãe desapareceu na curva. Cai o silêncio na rua e, pela primeira vez em muito tempo, fez-se noite no meu quarto. Pela primeira vez em muito tempo, o meu irmão não estaria ao meu lado, impedindo que a noite se apoderasse daquele espaço que costumava ser nosso. Não dormi e não chorei. As luzes acesas diziam que o meu pai também não.

A voz autoritária chamando por ele despertara-o do sonho que teimava em tomar conta de si, vezes de mais, repetidamente.
Quando é que isto terá fim? - perguntou-se.
Obrigado a libertar a reflexão matinal que nos é característica, levantou-se.

Hmmm

Quando acordo fico sempre pensativo, filosófico até. Penso. Sei que existo ou, no mínimo, acredito que sim. Almejara alcançar a plenitude e, com ela, a afirmação do ser que almejei também ser. Porém, faltou-me um pouco mais de céu, sendo no entanto azul em vários panoramas. Faltou-me um pouco mais de sol para arder, naquela luz vermelha e dourada, quente, sem fogo. Tudo em mim sofreu forte abrasão.
Quando era ainda mais novo, costumava ouvir temas no pequeno rádio que tinha na mesa de cabeceira. Que será feito dele? Era velho e preto, sem duas peças, ou melhor dizendo, sem uma peça e com outra sem funcionalidade. Passo a explicar. O botão que ligaria uma luz no visor de modo a possibilitar uma consulta nocturna do andamento da noite estava em falta. A roda de plástico que permitiria aumentar o volume, estava solta, rodava sem acção, sem produzir nada útil além do som rouco de duas peças rangendo.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Não vai mais o Lobo uivar para a Lua azul

Não importa mais a nossa cor, querendo tu ou não.

Diz-me então, qual é a tua história? Diz-me então, quantos inocentes deixaste para trás? Não dizes? Eu não insisto neles, mas diz-me, qual é a tua história?

A tua maquilhagem faz o teu sorriso perdurar ocultando a mágoa. O que aconteceu? Outro romance falhado? Uma e outra vez? Será que alguém sabe o que vivemos?

Eu tentei, mas na verdade, só quero ser livre.

Ascenção e quedismo sem pára-.
Nem tudo é um mar de rosas, Nem tudo são versos e prosas.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Coisas Soltas

“Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo, desta vida, descontente
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.


…Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te
Quão cedo de meus olhos te levou”.

Luíz Vaz de Camões, Sonetos

Estás a chamar-me? Estás a tentar alcançar-me? Eu estou a tentar alcançar-te…

Eu sinto a tua dor, sente também a minha. Vamos entrar na cabeça um do outro. Só para ver o que descobrimos. Só para ver como vemos, vendo pelos olhos um do outro.

Podia chamar-te Pátria minha, chamar-te o mais lindo nome Português, forte como o amor de Pedro por Inês. Como dizer? Um coração fora do peito. Gostar de ti é um poema que não digo. Gostar de ti é um poema que não escrevo. Pois não há forma, não há verso, não há mundo para este fogo. Como dizer? Um coração fora do peito.

Deus, que te alargou de mim, que te encurtou a ele, negando-me a suprema poesia que eu almejava, fê-lo. Meu irmão de sangue, dizem os antigos, se fores capaz, se tiveres a delícia de possuir um coração, se fores capaz de ceder à mão de quem te embala, se fores capaz de falar com o silêncio perturbando a razão que te guia, então GRITA!

Minha Dinamene, Tin-Nam-Men, Portas do Sul, Porta d Paraíso, recolhe-me ao abrigo que te votaram e rapidamente dá-me a entrada no mundo em que vives que me não deixam passar.

As ondas das eras, não as do mar, levaram-te para lá do meu conhecimento e está agora nesse lugar teu, onde eu não almejo chegar por declarado realismo. Dá-me o prazer de te ver um pouco de fora dessa esfera. Eu sinto a tua dor, sente também a minha. Vamos entrar na cabeça um do outro

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Abaixo Assinado

As sementes tornam-se árvores, as crianças tornam-se Homens.
A vida que eu não escolhi nunca poderia ser título para uma digressão musical pimba, mas de uma digressão de hip-hop underground, de um livro, de um musical, talvez de uma ópera. Talvez por isso não vingue.
Por falar em vingar.
Quando vingamos a vida vinga-se e faz-nos vingar outra vez só para se deliciar com uma nova vingança. Vale a pena pensar nisto.
A vida que eu não escolhi podia adaptar-se a uma panóplia enorme de acontecimentos correntes da vida. A vida que eu não escolhi podia adaptar-se a uma panóplia enorme de acontecimentos marcantes da vida. A vida que eu não escolhi podia adaptar-se a uma panóplia enorme de vidas.
Não escolhi a minha vida, nem os pais que me a deram, nem a minha aparência, nem como me chamaria, nem as minhas capacidades nem os meus dons. Não escolhi o meu feitio intríseco, o meu verdadeiro perfil. Não escolhi as minhas oportunidades nem a sua quantidade.
No fundo, não escolhi nada do que levarei para a cova, mudo e frio, e que me acompanhe desde o meu início.
Escolhi as minhas roupas, escolhi os meus gostos, escolhi os meus amigos, escolhi a minha profissão, não escolhi aquilo em que me tornei, não escolhi aquilo em que me vou metamorfoseando.
Aprendi a viver com isso, vivo com isso.
Contudo, não posso, no meu íntimo, naquele lugar escuro e recôndito onde não somos mais que as bestas uivantes que nos originaram, originadas pouco depois do verbo, sentir-me satisfeito. Aliás, não posso, em situação alguma, sentir-me satisfeito.
Nasci com os pais que tenho hoje, 9 meses e meio depois de eles, muito por vontade, muito por acaso, terem cumprido os requisitos bioquímicos necessários para a minha concepção.
Tive as oportunidades que eles me puderam dar, as que consegui e as que a vida me deu. Deixei passar muitas, agarrei as que consegui. Não me sinto frustrado, sinto-me realizado.
Tive a oportunidade de estudar numa escola primária privada e a vida deu-me a oportunidade de ter uma professora que construísse uma máquina de competição no meu ainda iberbe cérebro.
Os meus pais deram-me a oportunidade de ir para o Colégio Militar e eu consegui, usando a máquina de competição que me havia sido moldada, moldar o meu corpo a minha mente e a minha consciência. Pelo caminho, a vida deu-me a oportunidade de ver na minha própria casa vários dramas, desde a violência à pura estupidez. Com isso a oportunidade de ser homem, de ganhar o respeito pela mulher, de tomar as rédeas bem cedo, de tomar decisões com mais de metro e meio, de escolher entre o que via como bem e mal, de tornar-me ainda mais alto na cabeça. Não na área literária, não na área intelectual mas na área afectiva, na inter-relacional, na área que nos torna humanos.
Vinguei, pela primeira vez, elevando-me entre os meus pares, nunca deixando de lhes dar a mão, muito por tentativa e erro. Perdi a oportunidade de chefiar, fui súbdito e com isso ganhei a possibilidade de despontar finalmente a guerrilha antiga que me corria no sangue, que existe em cada uma das minhas células. Como uma folha seca próxima de uma chama, ardeu imediatamente e, como uma floresta tropical, vai ardendo, constante.
Então, conheci África Minha. Percebi as interrogações que me assolavam sobre as minhas origens e ganhei um avô que não conhecia. Um diferente do que eu julgara ser um velhote ausente passando o dia no talho, retalhando carne como retalhava a vida dos seus próximos. A verdade é que não retalhava, talhava por meios que ainda não compreendo mas que são eficazes.
Tudo acontecimentos que não escolhi, tudo variáveis que não controlei, tal como a minha vida paternal, essa que não explanarei, não quero describilizar ninguem nem quero fazer juízos pouco esclarecidos.
De tudo o que pude escolher, orgulho-me de uma acima de todas as outras:
Desde amar e honrar a pátria, até ser ser sempre respeitador, afável e correcto.
Tudo aquilo que me permite repetir: Quando descer à terra,/mudo e frio/escrevam-me na campa/este elogio:/ Menino foi da Luz.
Uma nota de rodapé por ti, porque me importei contigo, porque me iludiste, porque me importei com o que pensavas, porque te segui cegamente no meu campo onde o maior cego eras tu. Morreste-me, de José Luis Peixoto. Acabei de o ler. Morreste-me disse ele. E feliz, morreu sorrindo depois de anos de tristeza e enganos.
Morreste-me meu irmão, que a tua alma de Mustang não seja só um espectro que cobre uma hiena. Ao galope pelos prados verdes que imaginei, espero o teu regresso como o cavalo alazão e de espádua forte que imaginei também.
E por isso, pela vez primeira, vai abaixo assinado.


Pedro Varela de Matos

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Cada vez venho mais forte

Mata e corrompe,
enfia e rompe,
rasga e faz da raiva teu capataz.
No final , não se esqueçam, cada vez venho mais forte.
Se eu pudesse, mudar um momento, mudar um segundo, para ser melhor, para ter sucesso, e não fracasso...Esquece!
Porque o meu ser também vive dos (erros) que eu faço.
Contudo, os meus agradecimentos, cada vez que volto, cada vez q parto, que adormeço, que acordo, que passo, reprovo, choro, rio, calo-me, engulo, contenho e liberto, frustro, desfaço e destruo...
Por dentro corrói, por fora não se nota, e então, por último, arrepende-te irmão, as tuas asas foram cortadas e presas pelas amarras de uma condição que traçaste há muito. Espero que digas, agora sou mais forte.
Eu digo, agora e brado alto: Quando recolhes, ciente da injustiça, desigualdade, ódio e frustração que carregas e praticas transfigurando-a na tua mente como ideais nobres, eu recolho também e digo, estou mais forte, mas não mudado, não convencido, não convertido, porque os mustangs são espíritos selvagens, livres, que caiem na mansidão pelos caminhos justos e verdadeiros.
Somos mustangs, fortes, unidos e sim, CADA VEZ VIMOS MAIS FORTES, CADA VEZ VOLTAMOS MAIS FORTES!