quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Curvas sem fim sem sentido e sem moral


Curvas.
Num monte de entulho, há apenas curvas.
Como as curvas aliciantes que moldámos nas figuras sensuais que formamos desde a primeira descoberta, até ao complexo modelo inexequível, contudo, que se perplexe o Senhor, imaginável.
Curvas de entulho. Aos solavancos, no entulho.
Para falar verdade, depois de algum tempo e sedimentação de novas memórias, tudo o que recordamos é entulho. Lixo sem importância. Porém, é lixo curvado.
Estranho, com certeza, dirão os puristas físicos, cientes da inexistência da curva na inexistência da luz, estranha simbiose subentendida num domínio que abomina as relações de necessidade sem qualquer fundamento matemático.
Aconselho que saiam à rua à noite. Caminhem e caminhem como se não soubessem onde vão parar. Fá-lo-iam mesmo não fosse a inconveniência das placas de trânsito que, rudemente, insistem em mostrar-nos que não estamos perdidos. Mas será que o fazem com verdade?

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Sem Desculpas

Quero começar uma revolução pessoal.
A sério.
Quero começar uma revolução pessoal.
Algo real, convicto e firme. Duradouro e efectivo, que permute finalmente este Homo Sapiens Sapiens num tão ansiado quanto famigerado Homo Libero.
Sem desculpas, vou começar uma revolução pessoal.
Conto o tempo. Sei que apenas me sobram um número finito de segundos até ao parar do meu cronómetro telomérico e no entanto deixo-os passar assim sem a mínima preocupação, sem a mínima revolta. Mais um ponto para a racionalização da fundamentação da minha revolução. No fundo todas as justificações de actos e pensamentos são só e apenas meras racionalizações formadas à medida dos seus destinatários nas entranhas cranianas de cada um. Pressão Social, eis mais um ponto para a minha revolução.
Vou começar uma razão pessoal. Acabarem-se-me as desculpas.

domingo, 31 de outubro de 2010

Rasgar papel

Com a caneta, rasgo o papel.

Deambulo entre as mentes das que passam, sonolento.
Sentimentos nostálgicos e trágicos cruzam a minha sem pudor. Sem respeito por mim, deambulam as pessoas.
Nesse misto de orgulho, horror e vaidade, cruzam-se acompanhadas num instante, sozinhas no seguinte ou no anterior, não posso nem sei precisar qual.
Talvez seja essa a diferença entre o ódio e o amor: A precedência ou o seguimento de um instante, respectivamente.
Dói-me o lado direito.
No ombro do tijolo duro. Na face do sol que queima, fazendo-me descer a pálpebra na protecção do meu mais querido sentido.
Dói-me a mente.
Porque fui dar-me ao luxo de pensar?Há claramente quem o faça por mim, muito mais e muito melhor...
Décadent é o resumo do meu ser.
Perdoa-me Niezsche se não tiveres razão.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Do bipedismo

Quando nascemos somos educados:


Faz e não faz, diz e não diz, olha e não olha.
Em suma, sê mas não sejas, vive mas vive apenas pela metade. Não ter direito a tudo o que nos é devido é, mais que frustrante ou injusto, indecoroso.
Que vergonha vemos pelos nossos olhos ao olharmos o invólucro celular de um homem que luta e contesta, que não se satisfaz e nunca foi satisfeito. É um homem à bruta.
- Não gosto de viver apenas metade dos dias e por isso não gosto de dormir. É tempo perdido, que infâmia!
Vivo a minha vida ligado à energia pura, rápida, instintiva, intensa e sem vírgulas. Vivo à bruta sendo completo apenas e só assim! À bruta as rugas do meu rosto a envelhecer foram conquistadas ao tempo e não o contrário, pois cada dia que venço é uma conquista titânica sobre os elementos, divindades e demais invenções metafísicas.
Mérito a O. Wilde. Ele prevera este homem. Sem quadros absorventes nem outras bruxarias que tais.
Apenas um homem cheio de raiva, paixão e natureza livre. Um mustang bípede.
Isso mesmo, um mustang bípede.

sábado, 2 de outubro de 2010

Ribalta

De repente,

Num segundo calas-te e o mundo espera ouvir-te. No silêncio das tuas palavras fortes, convictas, não dizes o que querias dizer, apenas o que quiseram ouvir.

Sem a chama de Niezsche, o consolo de Saramago e a livre e suave prosa de J.L.Peixoto sempre misturada no mais fino rigor com a pureza e a verdade que convém, ensaias algo que não é bom nem mau. É teu. Por ora, é só teu. Será do ar e das paredes que te ouvem. Porém, enquanto o pensas, é só teu.

Sobe o estrado, as cortinas clamam que as deixes subir. As hostes aguardam-te ardentemente, sôfregas pelo que representas.
Representa o teu mundo, representa de onde vens e no que acreditas.
Nunca representes quem és, pois nesse momento deixarás de sê-lo para ser só mais um actor.
A cortina chama, consegues ouvi-la?
Vai e brilha.
Não pares que se o fizeres cairás.
Se caíres, levanta-te.
Como sempre, rumo à Ribalta.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Pelo Espírito Sombrio 3 - Alive

Largos, Clareiras, Praças e avenidas solarengas. Prados e montanhas, palcos, coretos e pelouros de igual visibilidade. Clamo por vós.

Vivi entre grutas e cavernas, mares mortos, desertos gelados e demais lugares inóspitos, abandonados para refúgio das criaturas da treva.
Não posso dizer que fui feliz. Não posso dizer que não o fui. Provavelmente, se o tivesse sido não saberia dizê-lo. Tal como se não o tivesse sido. Fui.
Dedicado e labutante, consciente por fim da existência do meu corpo para lá da minha sombra, fui.
Encarcerado num Chateau d'If psicológico aprendi, não sem o auxílio precioso do mestre, os caminhos da redenção e da vendetta, desde a improvável iniciação, à mútua aprendizagem, até a separação libertadora, no derradeiro acto de tutoração.

Trago comigo as cicatrizes dos meus aniversários: Pela confiança, pela inocência, pela ambição e pela traição. Por aqueles que me abandonaram, pelos que tive de abandonar. Pelos que nunca estiveram comigo. Principalmente por estes últimos. Pelo amor, o ódio, a paciência, a solidariedade e todas as decadánces.

Durmo no chão duro do quarto de finas sedas que construirei para mim. Para ti. Para eles. Sejamos nós quem formos.


No advento da segunda vinda, na reunião das 12 tribos, Ecce Homo clama que está vivo. Fortalecido não forte; Enegrecido não obscuro; Confiante, Capaz e Capacitado. Um pouco menos Humano. Um pouco mais Alive.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Pelo Espírito Sombrio 2 - Losing my Religion

Sou eu a um canto.
Sou eu no centro do palco.
Pela janela ou na plateia, não recordo com certeza, pensei ver-te rir, pensei ver-te cantar, pensei que tinha pensado ver-te sorrir.
Perco a minha fé e penso que não sei se pensarei por muito mais tempo.
Sou livre para seguir qualquer trilho, qualquer caminho, qualquer moral.

Perco a Religião. Morro. Nunca saberei se apenas pensei ver-te ou pensei que o tinha pensado.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Ainda te lembras?

O Sol brilhava para todas as pessoas, quando antes, apenas nascia. Pessoas iguais, aceites e legais. Cidadãos do mundo, onde nem os oceanos e cordilheiras, florestas e mares de palha, ousavam ser fronteira.
Eu e tu, nascidos e criados como antípodas, adversários leais e capazes, aspirando a um lugar comum q apenas nos aproximava.
Quando os homens eram mais belos que as palavras dos poemas que os descreviam; Mais belos que os próprios.
Ainda te lembras?
Eu ainda me lembro. E às vezes, quando te amo e te desejo, e te amo e te desejo outra vez, na confluência dessas vontades que não são minhas nem nunca as tive, nesse milésimo de segundo em que o raciocínio cede a Darwin para que os meus e os teus possam ter os meus defeitos, os teus olhos, os teus cabelos, os teus lábios, a tua voz e o mundo que em ti habita
. No milésimo de segundo em que te dou e me desligo ao mesmo tempo, em que, por momentos fico doente e não penso; Não respiro enquanto o sangue ferve imóvel pelo meu corpo e apenas nada existe. Ás vezes, ainda acredito!

Pelo Espírito Sombrio 1 - Liebe Ist Fur Alle Da

Ando Sozinho,
Por este caminho
Que partilho contigo
E paro. Olho para o céu
Estrelado, cor de indigo
Rogo-te que levantes
O véu, que levantes
O ego que guardo no umbigo
Sou tão apenas o que
De mim fizeres.
Sei que te mereço,
Sem mo dizeres.
Não me renegues
Que não tenho culpa
Dos teus enganos e engodos.
Não me condenes,
Pois sei que te mereço.
Sei, que o amor é para todos.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

De um Poema à Boca Fechada

Do chão se Levantam as colheitas e e as searas.
Do chão se levantam os Homens. Homens aos quais dedicou este livro. Apenas um livro sobre o Alentejo.

Morreu hoje, 18 de Junho de 2010, o único homem que, para além do talento, teve a ousadia de completar a história de Fernando Pessoa, de contar as de Jesus e de Caim que ha...bitavam na sua cabeça, com todas as disparidades In Nomine Dei.

Que à tua obra se faça memória de elefante e que a flor mais grande do mundo floresça à entrada da caverna onde não ressuscitarás ao 3º dia.

De ti não haverá homem duplicado, com uma morte que veio sem
intermitências. Não haverá qualquer jangada para um outro lado cego ou
lúcido.
Apenas o papel, a tinta e os filhos que estes tiveram.

domingo, 14 de março de 2010

Do rascunho

30 aglomerados de palavras.
Desde o dia fatídico, o dia em que a página em branco deu sustento ao corpo de palavras que infinitamente jorram, 30 aglomerados de palavras.

É então...
Toda a minha escrita foi feita de rascunhos. Não falo da pilha de folhas amarrotadas com rabiscos frutos de uma qualquer arrogância intemporal de quem se julga sabedor do que é segredo e sagrado. Pilha que minha mãe pacientemente recolhe e deita fora.

Acho que nunca serei capaz de lhe perdoar tal atrocidade que condeno e consinto. Principalmente, nunca serei capaz de me perdoar pelas mesmas razões.
Cada bola de papel amachucado, renegado e votado ao esquecimento é um filho meu. Filho meu que te neguei. Pela vergonha e perpotência, votei-te ao esquecimento quando não eras mais que umas células alfabéticas, talvez um par de membros, sempre sem coração para me sentir, sem cérebro para me perceber, sem mente para me julgar.

Talvez por isso consiga adormecer quando a lua vem e me lembra dos momentos das vossas imensas concepções. Lua, sem dúvida mãe dos meus rascunhos. Mãe que eu não consulto. Mãe, de quem me limito a aproveitar os seus deleites.

Talvez por isso, quando já és algo de que não me possa desfazer, me limite a esconder-te a um canto, numa qualquer pasta que ainda não tem pó, mas empoeirada será. Ao Tempo, ninguém interrompe o curso.

Escondidos para sempre, para minha vergonha, para minha arrogência.

Na verdade, pedaços de folhas e esforços dispendidos em vão, serão sempre mais meus do que todos os filhos que o meu corpo humildemente repõe de acordo com a minha vontade. Todos os filhos desperdiçados sem rancor, repúdio ou arrependimento. Meios-filhos que nada seriam sem outros 23 traços de um cariótipo.

Estes, nascidos da simbiose da minha mente com a pureza láctea da folha em branco, serão sempre meus, só meus. Renegados assim fiquem os que se revêm apenas na brancura prostática que ninguém quer lembrar.


E assim, com rascunhos, escrevo mais uma linha iberbe, no amadurecimento que virá com os novos frutos da Primavera.

Os livros são papéis pintados com pinta. OS Rascunhos, são os homens.
Que à minha morte possa dizer que mais não fiz que rascunhos, obras inacabadas, talvez, mas riscadas, corrigidas, alteradas, e modificadas num frenesim sem fim, para que no fim fossem fiéis À minha consciência, rebatendo todos os contornos do escritor plástico e colagénico, que insiste em afirmar-se no texto lapidado.
Depois, guardados a um canto redescobrissem o Homem por detrás do Artista, as múltiplas personalidades que todos ansiamos mas que estão reservadas aos predestinados. Pessoa que toma a palavra.

Depois, fossem a minha marca, a minha continuidade, a maior garantia de que cá estive. Que levem os meus ensinamentos, os meus saberes e conhecimentos. As minhas emoções.

No fundo, sejam os filhos orgulhosos do pai que deles teve vergonha.


É como um rascunho que vivemos 2010.
E voltamos às origens. Voltamos a nascer.


Valete F.: