domingo, 26 de junho de 2011

La Petite Mort

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La Petite Mort...
por Pedro Varela de Matos a Domingo, 5 de Junho de 2011 às 21:54

Enquanto os resultados são ultimados, José Sócrates se afasta da vida política activa e aguardo a reacção de Francisco Louçã, resta-me repensar:

O PSD vence as eleições sem a confiança total do eleitorado que, garantindo a vitória mais ou menos esperada a Passos Coelho, no habitual girar do mesmo disco, não garante uma governação "a pulso". Bem ou mal? Não interessa, pois o sempre expectante Cãozinho da Direita Saudosista que morre sem Paulo Portas continua a aproveitar a onda de indignação, culpando o Estado Social pelo endividamento. Retórica sem mácula, estou habituado.

O PS sofre pelo desgaste de José Sócrates. Ponto.

O Bloco é esmagado. Francisco Louçã insiste no modelo intransigente, ajudando o BE a arrepiar caminho, mantendo o estereótipo de partido de protesto, de oposição, do contra. Nunca, pela informação dos Portugueses sobre a capacidade do Movimento para apresentar propostas, de ser uma alternativa válida. Em suma, nunca quis apresentar o seu pequeno projecto pessoal que cresceu mais que o mestre como um partido de referência, um partido a sério. Resultado? O caminho da governabilidade pode estar irreversivelmente vedado ao BE.

Sejamos irredutíveis naquilo em que cremos. Não sejamos cegos por vontade própria.

Francisco Louçã, aproveite a onda e demita-se. Todos os aderentes lhe reconhecem o imenso mérito que teve no passado e eu não sou excepção. O BE precisa de novas caras, novas ideias, novos rumos. É isso ou nada. Prefiro a primeira, mas eu sou só um "militante-base".



Chega de manifestos pois se parámos hoje, o mundo não. Temos um dia em atraso para compensar.

Até amanhã às 8 em ponto.

Avante Portugal, laranja, rosa, vermelho, preto, azul ou outras cores que não sei de cor

Cérebro e Etanol

- Consegues falar a minha língua?

- Claro que sim! Tenho língua como tu, talvez maior ou mais pequena ou de uma tonalidade diferente assemelhada pelas sevícias que ambos lhes provocamos mas, na generalidade, tenho uma língua capaz de imitar os mesmos movimentos da tua. Os mesmos músculos, as mesmas acções e, mais ou menos, as mesmas sensações.

Que estupidez de pergunta, sem dúvida.

Mais estúpido ainda, é assumir que as capacidades que nos são comuns podem ser entendidas pelos cérebros comuns, moldados de formas em nada idênticas.

- Consegues falar a minha língua?

- Claro que não! Sou capaz de emitir sons que talvez se confundam com aqueles que tu emites mas, mesmo após intenso treino, serei capaz de me exprimir nesse dialecto a que chamas teu. Somente quando um dia me propuser a entender os meandros desse linguajar que me soa a bárbaro poderei falar a tua língua. Conversar nela.

Contudo, se a Torre de Babel efectivamente existiu e ruiu para a falência dessa arrogância humana que mais não é do que a tentativa última do ser de se erguer, depois de refundidas todas as depressões que o condicionam, podemos dizer que Deus falhou, se existir.

Ora pois, quando eu não entendo o que dizes e tu não entendes o que digo, é o momento em que nos entendemos perfeitamente. Sem artifícios de linguagem, sem entoações, sem segundos sentidos. Só a linguagem deste e desse corpo. Desta e dessa face. Não deixamos o corpo mentir e não queremos que a face o faça.

Todos os trejeitos são genuínos e concretos pois não há palavras que as possam explicar. Somos claros, concisos, sinceros e fiéis.

Quando o fizeste eu sei o que disseste e vice-versa, por mais que o teu cérebro e o meu se queiram apartar.

Onde há maior sinceridade senão na penumbra, nos olhos reluzentes de dois amantes? Escusas responder, pensa com calma.

Até as palavras chegarem e desmentirem tudo, nada existe mais sincero que isto.

- Não te posso dar nada - dizem, depois de terem dado tudo.

- Não penses no amanhã, que o hoje ainda não passou e chora, chora no meu ombro. Chora porque, para nós, Platão estava errado. Chora porque, amanhã, deambularemos outra vez, na busca a que fomos condenados. Se ao menos eu não pudesse falar a tua língua....

Sem Destino

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Sem destino
por Pedro Varela de Matos a Sexta-feira, 29 de Abril de 2011 às 21:34

Apetece-me discorrer.

Discorrer só, sobre qualquer coisa, sem qualquer sentido, sem qualquer propósito.

Como um escultor que vai tirando, peça por peça, os pedaços que estão a mais na pedra bruta, até só sobrar a escultura na primeira escondida.

Assim, sem planos, inventado as palavras à medida que vou escrevendo, deixo o papel prender as letras que se escondem na tinta negra. E eu, mero instrumento, resigno-me ao papel secundário de dar uma ordem a essas mesmas letras. O texto, esse, já lá estava, como sempre esteve.

Um texto onde se ultraja Camões, Pessoa e todos os autores Clássicos, não necessariamente por esta ordem.

A combustão de dois elementos, mais que um caso ímpar em Ciência, é uma semente literária.

Nesse plasma indefinido a médias temperaturas à nossa escala nasceram paixões, construíram-se fanatismos, formaram-se, desintegraram-se, anexaram-se e capitularam países, escreveram-se, comparações e metáforas e hipérboles e outros tantos recursos estilísticos excepto este mesmo que acabei de usar.

Da luz ou do brilho, do calor ou da cor, talvez do medo que desperta ou do afago que emana ou, quem sabe, da intensidade da noção imperfeita e indefinida do inatingível que nos atravessa a mente, fogo produz sobre nós um efeito tão múltiplo, diversificado e diverso quanto as suas características com as variações que estes sofrem.

Acendo um cigarro. (Adoro fumar enquanto escreve. Nunca entenderei porquê: É pouco prático, a cinza cai nas folhas enquanto escrevo ou quando me distraio e o cigarro já queimou de mais. É inquietante quando um bafo mais comprido me faz parar, repensar e em última instância, acaba por me levar o pensamento que originou tudo isto. Nem por isso deixo de aproveitar esta benesse do Destino que Álvaro de Campos imortalizou. Porém, aqui estou, fumando e escrevendo, preso neste limbo entre o conforto e uma necessidade de fusão do fumo do tabaco com o meu mais profundo intelecto.

Talvez seja isso mesmo, a fusão mais real e perfeita metáfora da dádiva de Prometeu com o orgânico lixo oferecido aos Deuses dos pagãos.

Talvez encontre nesta destruição do meu ser de animal o antagonismo para o aperfeiçoamento da psique. Pelo fogo.)

O cigarro foi-se e, dentro da minha cabeça, sinto um bombardeamento londrino de ideias.

Como a comunhão do pão e do vinho ou o que quer que outras religiões usem e que eu desconheço para atingirem a perfeição espiritual eu comungo o fogo.

Melhor, o que resta dele, apenas a sua lembrança.

Como pude eu, que sempre fui fraco e frágil, submisso e displicente, ousar sequer pensar em comungar-me com a mesma força que gera vida, gera as estrelas. A força que, em última análise, gerou o Universo?

Inspiro-me neste fogo balançante das fogueiras da minha memória enquanto penso que não poderá haver morte mais digna, se é que existe alguma, do que morrer pelo fogo, imolado, pagando com a carne as desenvolturas oferecidas à mente pela mão punida de Prometeu. Um pouco à semelhança do que dizem dos contratos de alma com o Diabo: Um benefício que ninguém conseguiria alcançar de outra forma em troca de um preço que ninguém quer pagar. Talvez por isso esta alegoria venha sempre acompanhada de fogo.

Reponhamos a verdade:

A metafísica não é mais uma consequência de estar maldisposto! Musas, Tágides e demais infâmias não são mais do que meras consequências do desconhecimento e da ignorância! A dor, a angústia e todos os sentimentos que inspiram o Poeta mais não são do que materializações mentais de um ardor que só se sente, quando não se é um fingidor! São Fogo, a derradeira, imprevisível e imutável fonte do saber, ou pelo menos da coragem para desafiar a imponência!

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Da fusão de uma lâmpada incandescente, fumo de tabaco e melancolia

O Mundo é tão mudo quanto o meu inconformismo.
Não ligo directo para a caixa de correio pois, se soubesse como fazê-lo, não ouviria a tua voz.
Não me visto de branco, porque não gosto e porque não estou alegre nem de luto. Contudo, apetece-me gritar até rebentar as artérias.

Inspiro fundo...Nada.
Inspiro fundo novamente...Nada.
À terceira fico a meio na indecisão entre uma acção provada inconsequente e a fé desmedida nas capacidades regenerativas de uma inspiração profunda.
Depois, como que inspirado do profundo, expiro algo misto de libertação e de vontade: Tenho as artérias rebentadas e delas sai apenas Ar. Não sobra nada. Só ar e as recordações. As más que são as únicas que quero prevenir.


Deito-me, desaconchegado, livre de ar, livre de espectros.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Antes do Verbo...

Puxo de um cigarro, acendo-o e, pacientemente, ouço um música qualquer de um artista qualquer. Uma má melodia e uma má poesia produzem um tão bom consolo que é quase um deleite ouvi-las nessas sintonias desajustadas.
Cansei-me de deixar o processo desenrolar-se à minha revelia e tomo as rédeas da decisão sobre a minha aparelhagem.
Passo uma, duas, três músicas. (O serviço inteligente que procura as músicas que, supostamente, mais gostamos e que nos faz sugestões é tão absurdo e obsoleto que me questiono como alguém pode usá-lo com satisfação. Imagino as reuniões de emergência para resolver o drama das reclamações, acompanhado da visão de um armazém cheio dos velhos sacos gigantes de correio, de linho ou salparilha.)
Finalmente que surge algo que, mais do que aquilo que eu quero ouvir, é aquilo que eu preciso.
De repente, um sobressalto! Depois, a acalmia de uma preocupação sem razão, para já.
Por fim, a ansiedade. As indicações são favoráveis...E Então?

Morro um bocado no processo...

domingo, 9 de janeiro de 2011

Pelo Espírito Sombrio 4 - Anti-Herói

Dá-me a mão,
Acusa a pressão.
Dá-me um sinal,
Diz-me que não!

Grita,
Foge daqui.
Foge para longe de mim.
Grita,
Foge correndo.
Foge, já e sem medo.

Não venhas comigo
Pois estamos perdidos,
O que temos nada vale
E do que fizemos nada presta.
Já não há canção que te embale
E do Mundo Novo já nada resta.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Seriedade

Que é feito das pessoas idóneas e de valores morais e éticos estruturados assentes numa personalidade forte e independente?

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Em Êxtase!

Os elementos complementam-se. Frenética e apressadamente. Beijam-se e tocam-se. Frenética e apressadamente.
Num reluzir de pele brilhante, encaixam-se. Frenética e apressadamente.
Explodem-se e emulam-se num combinar brilhante da palete amarela, laranja e vermelha. Na paleta do fogo.
Os seus corpos ou o que quer que sejam neste momento cruzam-se e unem.-se numa reacção química pouco definida e infinitamente instável. Tanto quanto a frequência do seu início e do seu fim.
O calor que deles resulta consome-os, rouba-lhes a mesma energia que o originou.
Eles amam-se na chama que uma faísca, eléctrica ou química, ninguém sabe precisar, criou. Um breve instante que desencadeia este fervor físico, psicológico e espiritual até consumir os três e consumir-nos a todos, cansados, febris e incandescentes. Rejuvenescidos.

Posso ver os seus cabelos roçarem o peito dele, os olhos de ambos reviram alternadamente, em harmonia e alternadamente outra vez.

Ela brilha aos meus olhos. Quase que posso ver-me no reflexo sinuoso da sua pele, das suas formas.
Sinto-a intensamente, percorrendo-me a medula espinal, numa presença etérea que permanecerá forte e perdurará. Sei-o de experiência própria. Com ela, com todas. Mesmo quando o coração não perde o sono, o corpo apega-se e emula-se, puxando pelo miocárdio que, malvado sejas, faz parte do meu corpo.
Freneticamente, beijamo-nos enquanto me foco na gota de suor que escorre entre os seus seios firmes e jovens. Também suamos no fogo que criámos e os humores que partilhamos fundem-se numa razão proporcional à fundição dos nossos corpos e somos mais unos do que alguma vez ambicionámos. Na razão inversa da distância dos nossos pensamentos.
Amo-a. Só não sei o que isso siginifica.

Ele olha-se no meu corpo.
Sei que neste momento sou dele e ele me pertence. Sem escalas sociais, invariável à bebida que me pagou ou à mão que deixei, esquecida em cima da sua perna ou demorada e abstraída no seu peito e nos seus ombros. Apesar do apertar sanguíneo e mental da genitália, dos nervos que agora me garantem que ele é meu e, neste momento, lhe pertenço.
Penso para além.
Anexámos o coração fingido que ele não se rendia incondicionalmente com muita vontade de o fazer, para bem do nosso ego e, nem por isso, deixo de o sentir falando em nós quando nada disso existe excepto agora.
Excepto neste tempo em que somos o fogo e a chama um do outro e nos comburimos e combustamos mutuamente, ele é ele e eu sou eu.
Nem por isso o meu coração deixará de arder um pouco mais, deixará de carbonizar mais um pedaço, num acto prazenteiro de auto-flagelação a que nos dispomos na esperança de que sejamos feitos um para o outro enquanto fingimos não entender que só os nossos corpos encaixam.
Porque os corpos não somos nós mas sim os nossos corpos, com cérebro e miocárdio mas sem coração e sem mente. Sem Alma. Porque o nós não existe.
Eu existo. Ele existe. Em todos os tempos e modos verbais nesta e em todas as línguas, sábias ou, por ora, não sábias. A língua que lambe mas não sabe o que dizer, nos lábios que falam mas não fazem acontecer.
Nós não existimos e eu sei disso mas não quero saber. Eu tenho futuro mas só quero pensar no presente pois ele é o meu presente, mesmo não sendo nós. O futuro é incógnito e para incógnito, em matéria de alcova, bastam os filhos de mães solteiras e pais do outro nome que, não o sendo, fizeram por isso.
Prefiro tê-lo nos meus lençóis do que não o ter em lado nenhum, mesmo sabendo que nunca tomaremos banho juntos nem passearemos de mão dada nem trocaremos juras de amor infantis e irreflectidas, olhando o cosmos, ouvindo o mar, saboreando a boca um do outro num areal perdido da memória dos Homens.
E o meu coração queima enquanto os nossos corpos se fundem como elementos, numa pira de tecidos e suor, como amantes proibidos de um amor shakesperiano.
E voltei ao nós. Para mal das minhas virtudes.